quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

...

Na chuva me chega a poesia
Molhada e sem controle nenhum.

Fica Fria e quente ao se misturar com a pele
Descendo desembestada no meio do telhado.

Prefiro quando chove e me tranco num quarto
Fico protegido no escuro e no frio
Nenhum verso agora me ameaça 

Há no peito trovões esplendorosos 
E nos olhos raios que saltam sem porquês 

Guardei uma rima no congelador 
E qualquer horas dessas eu a bebo
Sólida e sublimada como minha razão.

Pés pra Lua

Não dorme com os pés virado pra rua
Era coisa que dizia minha mãe
Porque tem os pés pra rua quem já morreu.

Levei o conselho a sério, mas contínuo
Da porta do quarto eu vejo a lua
Durmo tranquilo, não era rua sua paixão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

estômago


engordei nos últimos meses
mais do que eu poderia
comer tornou-se um vicio
insaciável
como mais para preencher um
espaço
do que de estômago vazio
eu fico triste e como para
voltar a sorrir
não era assim e eu nunca
acreditei nessa história de comer
para ser feliz
mas hoje comer tornou-se
a cura e a doença
eu como tudo que vejo
pela frente e me volta a paciência
comi parágrafos, linhas, pontos,
acentos e vírgulas
engoli sem mastigar desejos
e angustias
devorei silêncios como quem
se enterra na areia
agora eu escrevo o que não digo
faço da minha fome um
vazio coletivo
me falta estomago pra tanto verso
eu nem mais escrevo, isso confesso
tentei rimar queijo com goiabada,
arroz com feijão, rimas tão pobres
e perfeitas que resolvem qualquer
indigestão
engulo com cara doce o azedo
e o amargo na ponta da língua
há de acontecer uma digestão leve
e tranquila em algum momento
sem peso no estômago da vida,
sem ânsia de vomito, queimação
ou azia
fazia tempo que eu não te comia
fiquei só no desprezo
agora eu sou  água na boca
alma vazia, 
desejo.

bruno alves da silva

importa

ultimamente tenho dado a vida por quem se importa.
atiro-me feito chuva no rosto nos braços de quem sorri.
revelo minha vida inteira para quem me diz um “oi” no ponto de ônibus.
passo a entender latidos dos cães vira-latas que de mim se aproximam na praça.
eu tenho tido paciência e devoção pelos pombos que cagam na minha testa como se fosse um bom dia numa manhã nublada.
tenho defendido mesmo sem razão quem um dia me disse ”conte comigo”.
para mim não interessa a crença, a raça, a língua.
eu quero quem se importa. quem na origem da palavra “traz para si, carrega, leva junto”.
quem não deixa a chama apagar no primeiro sopro e corre para acender com seu calor na primeira ameaça de apagão.
venero todos os dias quem percebe a lágrima que secou depois de percorrer seu caminho livre, desprotegido, secreto e silencioso em um travesseiro cheirando a suor.
para o vendedor da loja do centro da cidade quando me pergunta o que eu procuro e se preciso de ajuda, vou logo respondendo: “você se importa?”.
minha mãe me ligou e perguntou se eu tinha comido direito durante o dia de hoje. ela sempre se importa mais do que eu imagino.
as mães são seres “importadores”. percebem de longe o que o olhar não diz. percebem mesmo quando não tem o filho e seu olhar por perto.
ando procurando nas esquinas mais vulgares dessa cidade seres “importadores”. é difícil levar junto os pequenos dramas da vida, porque esses são realmente pequenos para quem naturalmente não se importa.
outro dia no banco da praça um morador de rua me sorriu. conversei como não conversava há anos. nunca mais o vi. importa hoje o que ficou daquela tarde.
fiquei amigo de um pedreiro um dia desses. ele me vendo esperar a hora para um seminário me perguntou: “o que vocês estudam aí dentro?”. foi o suficiente para eu lhe falar sobre teatro, sua história e minha paixão por ele.
descobri um exercício de trabalhar a importância quando bate alguma dor no peito:
telefono para quem se importa.
não conto nenhum drama, conversamos como quem nunca teve nenhuma tristeza na vida e sinto o amor por alguns segundos do outro lado da linha telefônica. não posso esquecer de perguntar  “e você vai bem mesmo?”, porque as pessoas que se importam tendem a oferecere seus ouvidos e nunca terem ouvidos de volta.
tenho observado quem cuida das crianças, briga pelos velhinhos, defende as diversas vidas. tem tanta gente que se importa.
quem se importa ler até pensamento e às vezes pergunta: “falou alguma coisa?”.

escrevo essas linhas regadas de água e sal para declarar que eu ainda me importo, porque desde que alguém um dia na vida se importou a vida ficou mais significante.

bruno alves da silva