ultimamente tenho
dado a vida por quem se importa.
atiro-me feito chuva
no rosto nos braços de quem sorri.
revelo minha vida
inteira para quem me diz um “oi” no ponto de ônibus.
passo a entender
latidos dos cães vira-latas que de mim se aproximam na praça.
eu tenho tido
paciência e devoção pelos pombos que cagam na minha testa como se fosse um bom
dia numa manhã nublada.
tenho defendido
mesmo sem razão quem um dia me disse ”conte comigo”.
para mim não
interessa a crença, a raça, a língua.
eu quero quem se
importa. quem na origem da palavra “traz para si, carrega, leva junto”.
quem não deixa a
chama apagar no primeiro sopro e corre para acender com seu calor na primeira
ameaça de apagão.
venero todos os
dias quem percebe a lágrima que secou depois de percorrer seu caminho livre,
desprotegido, secreto e silencioso em um travesseiro cheirando a suor.
para o vendedor da
loja do centro da cidade quando me pergunta o que eu procuro e se preciso de
ajuda, vou logo respondendo: “você se importa?”.
minha mãe me ligou
e perguntou se eu tinha comido direito durante o dia de hoje. ela sempre se
importa mais do que eu imagino.
as mães são seres
“importadores”. percebem de longe o que o olhar não diz. percebem mesmo quando
não tem o filho e seu olhar por perto.
ando procurando nas
esquinas mais vulgares dessa cidade seres “importadores”. é difícil levar junto
os pequenos dramas da vida, porque esses são realmente pequenos para quem
naturalmente não se importa.
outro dia no banco
da praça um morador de rua me sorriu. conversei como não conversava há anos. nunca mais o vi. importa hoje o que ficou daquela tarde.
fiquei amigo de um pedreiro um dia desses. ele me vendo esperar a hora para um seminário me perguntou: “o que vocês estudam aí dentro?”. foi o suficiente para eu lhe falar sobre teatro, sua história e minha paixão por ele.
descobri um
exercício de trabalhar a importância quando bate alguma dor no peito:
telefono para quem
se importa.
não conto nenhum drama, conversamos como
quem nunca teve nenhuma tristeza na vida e sinto o amor por alguns segundos do
outro lado da linha telefônica. não posso esquecer de perguntar “e você
vai bem mesmo?”, porque as pessoas que se importam tendem a oferecere seus
ouvidos e nunca terem ouvidos de volta.
tenho observado
quem cuida das crianças, briga pelos velhinhos, defende as diversas vidas. tem
tanta gente que se importa.
quem se importa ler
até pensamento e às vezes pergunta: “falou alguma coisa?”.
escrevo essas linhas regadas de água
e sal para declarar que eu ainda me importo, porque desde que alguém um dia na vida se importou a vida ficou mais significante.
bruno alves da silva
Nenhum comentário:
Postar um comentário